Sobre motos, mortes, vida e jacaré.

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          Já pressentiu, alguma vez, que algo está para acontecer? Nalgumas vezes nem mesmo o anormal deixa de ser normal!? Será um dia como qualquer outro? No caso deste, não tanto normal.

          Sábado catorze de novembro de 2009 será comemorado o primeiro aniversário do moto clube Guardiões da Amizade em Natal, no Rio Grande do Norte. Nada demais, tantos fazem aniversários e tantos comemoram. Há uma coisa especial, porem, neste sábado. Três personagens irão marcar minha vida, até o fim dela. Prestem atenção na narrativa.

            ……..

          Acordo por volta de cinco horas da manha deste sábado de primavera com sol em torno de vinte e cinco graus, ou mais, nesta bela da manhã da cidade do Natal. Tarefas: calibrar o pneu da moto, preparar mochila e esperar os amigos para uma pequena viagem até Extremos, RN para a comemoração do primeiro aniversário do Clube. Seu presidente é apelidado carinhosamente de Jacaré, uma figura extremamente simpática, mesmo quando rabugento, com seu coque preso a nuca e seu vasto bigode branco, especialmente preparado para a ‘festa’.

          Moto pronta, carcaça preparada recebo uma ligação de Selma, esposa de Jacaré me informando que não iriam, mais, de moto a festa e sim de bugue. Jacaré, em tempo, além de apaixonado motociclista era, também, bugueiro da região da natal metropolitana. Muita gente o conhece, com certeza, sendo motociclista ou não. Era uma figura impar, seja na moto ou no seu bugue. Ah, sim, era também artista plástico meio que acanhado, pois apesar de ter várias telas não demonstrava, ou fazia publicidade, deste seu talento.

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          Muito estranho Jacaré não ir de moto, muito estranho, mesmo. Ah, Era apenas uma anormalidade normal. Há dias que tudo amanhece às avessas, normal. Ótimo, vou de carona e aproveitamos para um bom bate papo. Brutus me convida para ir com ele. Não, vou com o casal.

           Papo vem, papo vai, falamos de nossas vidas, nossas famílias, seu falecido pai, seu sogro e de seu crescimento humano e espiritual ao lado de sua Selma. Também de mim, meus bichos e meus problemas. Puxa nunca tinha vista este lado daquele casal. Uma intimidade que nunca julguei ser merecedor de tal. Mas éramos amigos, nada anormal, portanto.

          Festa vai, festa vem, amigos, uma birita aqui, outra ali, um churrasquinho ou um prato de fava do Netinho, dos melhores que já provei. Puxa tudo tão maravilhosamente normal que não havia como pressentir a anormalidade. Não naquele dia, claro que não.

           Meio da festa, discurso do Presidente, resolvo sair logo em seguida. Eu e meu outro amigo Brutus. Nada mais seria normal a partir daquele momento.

          …..

          Perdi uma filha aos 13 anos de idade. Isso para mim é anormal. Outra estava na UTI. Extremamente anormal. Estava há mais de 1000 km de distância do fato, não pude ver minha filha com várias perfurações por conta do acidente brutal. Deus me preservou? Passei mais de um mês tentando salvar a outra. Nenhuma lembrança da morte. Esforço pela vida. Passei um ano e pouco para desabar em prantos. A entrada do cemitério foi o botão de start. Isso é normal.

          Eu mesmo sou meu primeiro personagem. “Reviver emoções”.

          Tudo à minha volta, a partir de então,  foi como um reviver um processo não vivido. Selma, ao me ligar informando da morte do Jacaré me trouxe a anormalidade. Uma noite e um dia de emoções de tão grande intensidade que meus músculos da perna doíam ao extremo. Viver um amigo, em sua vida e morte foi um desafio emocional. Porque eu tinha que viver tudo isso? Porque não formos de moto? Porque tivemos conversas tão íntimas somente naquele dia?  Porque o desgraçado do Jacaré não procurou o médico? O que ele poderia estar pensando acerca de sua vida, ou morte? Por quê? Por quê?

          Eis meu segundo personagem: Jacaré. Jacaré e “coisa e tal”.

          Nunca se pergunte o valor de uma amizade, apenas desfrute dela. Nunca pense em coisas fúnebres, a vida é para ser vivida, apenas viva sua vida. Se você demorar a perceber o valor da amizade, não se preocupe que a morte lhe fará este favor.

          Jacaré, com sua Selma, entraram na minha vida da forma mais simples possível. Assim vivemos nossa amizade. Figura presente em várias tardes de happy hour ou nos diversos churrascos tanto em minha casa quanto em outras localidades como os eventos e as sextas feiras no bar e pizzaria do Jorge. Todas as sextas. Companheiro de viagem cada vez mais freqüente era considerado um excelente motociclista, por todos, sob todos os aspectos. Tinha aquele perfil de liderança como poucos. Gerenciou um moto clube com figuras de várias personalidades, com grupos distintos que ia desde os biriteiros até aos mais ‘caseiros’. Conhecedor consciencioso do perfil de um motociclista e/ ou de um presidente de moto clube, nunca deixou um companheiro com problemas, seja na cidade como na estrada. Tratava seus membros com as igualdades necessárias, seja a turma da V-Strom quando as de pequenas cilindradas.

          A sinceridade em seus discursos compensava sua rabugice, seja para aconselhar, seja para comandar, seja para responder. Figura, extremante respeitada tanto entre os motociclistas quanto entre os bugueiros tinha uma vida secreta de todos, não de sua amada de mais de 30 anos. Era um ótimo cozinheiro e um ótimo artista plástico. Lógico que sabendo tanto de Jacaré teria que me considerar uma amigo íntimo, mas eu não conseguia perceber isto, até então. A morte foi necessária? Aquele passeio matinal foi necessário? Foi uma lição ou foi uma despedida?

          A perda de minha filha foi doida, mas não sofri o momento. Deus me preservou. A morte de Jacaré é doída, não apenas por mim, mas é especialmente sofrida, por ter vivido todos os seus últimos momentos. Todos.

Perdi um amigo íntimo, um amigo simples, um amigo sincero, um amigo irmão

Perdi um companheiro firme, um companheiro amigo, um irmão companheiro

Perdi um irmão de estrada, daqueles que não se larga, daquele que não nos larga

Perdi um motociclista amigo, perdi um amigo motociclista

Perdemos uma referência, perdemos nossa consciência do que é referencia

Perdemos a palavra sincera da mão que ajuda e da ação generosa por qualquer razão

Perdemos um pouco do prazer da estrada da saída à chegada

Perdemos um pouco de nos mesmo e nunca mais teremos de volta.

          Mas ainda temos uma referencia, eu ainda tenho uma. Jacaré não foi apenas bondoso em me ofertar seu carinho e seu amor. Foi bondoso em me ofertar a amizade de sua esposa. E nela que quero ver meu amigo. É nela que me apoio para superar a dor.  E ela que vai carregar, para o resto de sua vida, meu carinho pelo galego, bigodudo e rabugento amigo Jacaré.

          …….

          Vivi estes momentos, mas não sei a intensidade de minha dor. Sou um espiritualista que insiste em não se dedicar ao espiritismo. Jacaré e sua esposa eram vívidos. Temos nossa forma de enfrentar estes momentos, somos preparados para tais momentos. Nem todos são por isso não posso medir minha dor, mesmo sendo ela tão intensa. Muitos sofreram , sofrem e sentirão a perda de nosso amigo Jacaré. Brutus é um destes. Este é meu terceiro personagem.

          Da mesma forma que comigo, precisava a morte vir mostrar o grau, a intensidade de uma amizade. O mesmo ocorreu com nosso amigo Brutus. Companheiro leal esteve junto por toda a noite na resolução dos problemas relativos ao sepultamento. Ao não suportar mais as dores musculares e a intensidade das emoções procurei descansar em casa. Brutus permaneceu ao lado, acompanhando, ajudando e apoiando nossa querida Selma. Domingo, do nascer do sol ao carregar a urna fúnebre até a despedida final, lá estava ele ao lado de seu grande amigo Jacaré. Não há palavras para escrever a generosidade de Brutus. Jacaré é ciente.

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          Sobre motos, morte, vida e Jacaré são tudo isso. Vivemos maravilhosamente bem, montados em nossas máquinas, possantes sou não, mas, extremante, perigosas. Temos ciência disso. É vida, precisamos disso para viver. Nenhum motociclista irá pensar na morte, seja repentina, violenta ou silenciosa. Com certeza meu amigo via sua vida assim. Com certeza vemos nossas vidas assim. Vida e morte se separam por linhas tênues. Vivendo sempre no limite da vida e da morte, do amor e da dor. Mesmo assim, para nós, tudo isso é normal. Tudo por ficar repentinamente anormal, entretanto. A vida não será mais a mesma. As vezes nem mais será vida.

          Há poucos dias atrás já havíamos perdido outro grande motociclista, Ely Obelix.

          Tranqüiliza que a caminhada do Jacaré em direção ao Pai seja recepcionada por nosso amigo Ely. Um dia, meu irmão, estaremos juntos.

           Tranqüiliza saber que serei por vocês dois recepcionados. Por enquanto vamos viver a normalidade das nossas vida. Até que um novo sábado aconteça.