
Relutei um pouco quanto a escrever algo sobre o Ely. Já não era o tempo certo. Sequer pude ir até o Recife para um ultimo adeus. Sequer pude sentir o clima, provavelmente carregado de tristeza em seu funeral. Sequer pude fotografar o bonde de motociclistas que penso ter havido. Então, não havia motivação nem motivos para escrever. Tenho muitos amigos neste circulo, muitos mesmo. Os melhores são como o Ely foi. Sim, muito parecidos, pois somos de gerações próximas e amamos o que fazemos semana a semana. Já não somos tão jovens; já não temos tanto vigor nem tanta saúde; abusamos demais dos prazeres da vida bebendo, fumando, correndo de um lado para o outro, brigando com idiotas que cruzam nossas rodovias em tentativas alucinadas de nos fazer deixar de existir.
Não quero blogar um a um antes que minha própria partida seja motivos de um blog por parte de algum. Já havia escrito um texto quando da morte de outro amigo, o Japa do MC B17 há alguns anos atrás. Relutei, então em escrever sobre o Ely, não consegui.
Conheci Ely há poucos anos atrás, na época já com todos os problemas de saúde que vieram a provocar sua morte. Excesso de peso, excesso de cigarro quase cego, mas também com excesso de carinho. Foi fundamental para aproximar-me de tão grande figura. Não éramos muitos próximos, até porque morávamos em estados diferentes, mas isso era tão relativo. Atualmente morando em Natal, no Rio Grande do Norte, tenho bons amigos em todos os estados do Brasil o que deixa a questão da proximidade relativa. Por força de compartilhar uma mesma paixão era sempre possível encontrar Ely em eventos tanto no RN quando em PE.
A última vez que o vi foi no evento de Toritama. O abraço trocado sempre foi carregado de saudade, de carinho e também do prazer de estarmos mais uma vez perto um do outro. Trocamos poucas palavras, sempre girando num mesmo tema: as motos, os amigos, a cirurgia de redução, a quase cegueira. Claro saboreando uma dose de cachaça prá não deixar as palavras ‘muito secas’.
É preocupante conviver problemas de saúde, sejam as minhas seja a de meus amigos. Já não sou um garoto e tenho que me sacrificar para ter, ao menos qualidade de vida, já que o tempo da morte, este não se tira. Não gostava de saber dos problemas de saúde do Ely, alegrava-me a boa recuperação da questão da obesidade, mas não via com bons olhos sua perspectiva em perder a visão. Nem tentava fazer-lhe parar com o cigarro. Ha coisas na vida que é melhor pelo prazer, mesmo que abrevie a vida.
Somos motociclistas por pura paixão. Pra continuar a sermos, precisamos de braços, mãos, pernas e visão. Não gostaria de perder qualquer destas condições ou ter problemas com a coluna, por exemplo, como já venho tendo. Pensar na possibilidade de não mais poder pilotar uma moto ou ao menos um triciclo ou então não estar com os amigos num evento de motociclistas, soa a mim como uma condenação a morte. Acredito que o mesmo acontecia ao Ely, por isso a necessidade se recorrer a cirurgia, com certeza uma condenação mortal. Talvez sua ausência nos faça refletir as condições de saúde, área de pouco trato que damos as nossas vidas, mas se fosse diferente valeria à pena?
Jamais poderia ver ao Ely magro, não fumante, não estressado, sem o cargo que tinha na federação, por demais estressantes; sem ser a figura tão conhecida por tantos de nós. Não o Ely tinha que ser como era: gordo, fumante, apreciador de uma boa cachaça, vice-presidente estressado de uma federação em seus dias de crescimento. Também lhe era reservado, por todos nós, o papel de sábio, de ícone, de paternalidade e agora de mito.
Não havia um evento sem que houvesse uma romaria até sua figura, não vi um evento sem que todos a ele recorressem seja para, apenas um abraço fraterno, seja para ganho de experiência, seja para um papo descompromissado seja para uma fotografia, seja para sentir sua vibração. Fosse apenas para lhe tocar, como se apenas um toque bastasse para retirar-lhe um pouco de tudo ou mesmo para lhe doar um pouco de tudo. Sempre havia uma romaria em busca de seu conforto. Figura com muitos e muitos anos de convivência neste nosso circo de eventos, cidade por cidade, Ely nos ofertava com sua adoração pela tribo e vontade incessante de unir a todos na Associação de Motociclistas de Pernambuco. Assim, posso afirmar que boa parte de mim tem algo de Ely, boa parte de todos nós tem algo de Ely, boa parte do que somos da vida que vivemos e desejamos viver tem algo do Ely, boa parte do que faremos e viveremos tem algo do Ely.
Não quero endeusar a ninguém, somos todos mortais com defeitos e virtudes. Claro em vida nossos defeitos superam as virtudes, é normal. Claro que após as mortes só nos resta lembrar as virtudes. Ely como a todos nós tinha suas virtudes e seus defeitos. Não quero nem vou relatar defeitos, não me cabe. Espero que a ninguém caiba. Passou o tempo. Não quero, também, fazer exaltações gratuitas e vazias, mas quero criar o mito. Aliás, não que eu queira criar, o mito existe por si só. O Ely já o tinha criado. Não quero que a lembrança se perpetue, cabe a cada um de nós a guardarmos pelo tempo julgarmos necessário, enquanto boa for. Não quero placas nem nomes em ruas, basta apenas à consciência de ter visto no amigo as virtudes que o fizeram companheiro, sábio e lutador. Não vou plastificar adesivos, não me cabe tamanha homenagem, basta-me a lembrança, dos papos, da cachaça, do abraço fraterno, do conselho. A visão obélica do Ely, o Ely Obelix.
Ely;
Vá meu amigo, siga a luz, não olhe atrás, Deus te aguarda
Enquanto estiver indo, procures deixar em cada curva, desta pista divina, uma lembrança
Antes de chegares pensa em nós, vamos te procurar pelas lembranças marcadas
Ao chegares ao divino, reza e peças por nós, ainda somos mortais
Nós, órfãos aqui no plano de baixo seguiremos nosso caminho, agora sozinhos
Perdoa se faltar homenagens ou recordações, as homenagens findam, sempre te recordaremos
Perdoa a nós nos momentos de dor, por tua partida, ela foi tão repentina que ainda choramos
Cuida de nós em cada curva que fizermos em cada evento que estarmos
Vá meu amigo, siga a luz, transforma-te nela, ela será nosso guia em nossas vidas
Vá meu amigo, há tantos que te esperam
Amigos perdidos em curvas e quedas mortais
Vidas cheias de esperanças convocadas por deus a lhe preceder
Juntas formarão, a teu comando um novo clube uma nova festa
E a cada um de nós que formos ao teu encontro teremos nossa vaga, pronta
Nossos caminhos já marcados, pelas lembranças, serão mais fáceis de percorrer
Que teu trabalho terreno se prolongue no infinito, precisamos de tua força, cá e lá
Todos os irmãos que partiram estarão ao teu lado, exaltos em alegria finalmente chegas até eles
Vá meu amigo, outros tantos te seguirão, precisa liderar esta tribo
Vá meu amigo, siga a luz, não olhes para traz.
Deus te aguarda. Há tantos que te esperam.
Do alto guarda-nos com teus abraços fortes e amor fraternal
Perdoa-nos ainda somos mortais
Se as lembranças findarem, não se engane estarão apenas adormecidas
Se as homenagens acabarem o carinho jamais
Quando um de nós se for, receba-nos de braços abertos
Acompanha-nos na escuridão até que a luz de tua presença se faça
Ajuda-nos a continuarmos nosso caminho, nosso destino, nossas vidas
Vá meu amigo, siga a luz, não olhe atrás.
Deus te aguarda ao lado de tantos outros que te esperam
Vá meu amigo.
Vá com Deus.