
A primeira vez que a vi nem lhe dei muito crédito. Afinal minha intenção era comprar uma de estilo bem clássico, para lamas baixos, guidão bastante retorcido. Nada em sua modernidade me atraia. Claro, foi apenas uma foto de propaganda, mas aquele estilo meio Cstom, meio Cruiser me incomodava. Afinal de contas quem iria gostar de uma moto que não sabe o que é? Foi à única vez que tive esta impressão, nunca mais. Não foi necessário mais que uma breve olhada a pouco mais de dois metros de distância para que eu me apaixonasse. Tocá-la em suas partes negras e sedutoras, apertar seus comandos, tudo me levava a crer na aventura pela qual eu iria viver o resto de minha vida. Não demorei mais que o tempo que levou mouse da propaganda do Unibanco para me decidir. Na hora mudei minha idéia, rapidamente a respeito da classica0, queria uma 800 agora, queria uma Boulevard M8OO.

Os dias foram de ansiedade, mas contidos afinal não desejava que o pessoal a montasse sem ter o amor que eu iria lhe dedicar. Pacientemente esperei até que me ligaram informando que a menina estava pronta para mim, pronta para a estrada pronta para minha vida. Nascia a Kamila, nascia uma paixão. Foi uma noite de plena ansiedade, afinal os dias seguintes me levariam a uma viagem de, pelo ao menos, três mil quilômetros. Eu, Cristina e a novíssima Kamila. Uma aventura e um verdadeiro teste que comprovaria minhas suspeitas. Ela foi realmente feita para a estrada. Dia seguinte apresento a meninas aos amigos de campinas. Claro, badalação a torto e a direita. Claro que, como amante orgulhoso, deixava que a tocassem, com carinho, com simplicidade e com curiosidade. Mais um dia e ela iria pegar a estrada.

Dormir, quem me dera ter sono para dormir? Cedo, sei lá umas quatro ou cinco horas acordo Cristina. Vamos embora que a Kamila ta me chamando para queimar pista. Vamos nessa. E, lá vamos nós, cheios de vontade de rodarmos três mil e poucos quilômetros. E, lá vamos nós com a mais nova integrante da família. E, lá vamos nós de retorno para casa após sessenta dias em Campinas. Saudades ficam, saudades me levam, vou para casa.

Primeiros quilômetros.. puxa que máquina!. Silenciosa sem deixar de fazer aquele barulho de uma moto grande. Potente para me fazer avançar perante caminhões e carros. Forte o bastante para impor respeito nas ultrapassagens, bonita o bastante para atrair multidões. De inicio os guidões me preocupavam. Pareciam curtos demais. Será que não era por causa de minha posição de montaria? Tentei me aproximar mais do tanque. Na verdade, a necessidade de me manter próximo a Cristina me fez acreditar que a distância para o guidão era excessiva. Que nada. Já me falaram que a troca do guidão original pelo da Drag Star melhoraria a condutibilidade. Não acredito nem quero tentar. Descobri como me fazer feliz na distância certa. Os primeiros quilômetros, claro, de mansinho. Tô fazendo o motor. Por enquanto vamos observar as recomendações da japonesa. Vamos devagar.
O torque e a potencia da menina me ilumina. Claro, é uma Cruise/Custom. Nâo é nenhuma esportiva ou speed para meus amigos são paulinos (do estado, é claro). Mas, para este estilo de moto, para esta cilindrada, para este peso, para este designer , me pareceu uma surpresa. Na pista, acima dos cem quilômetros, parece uma pluma. Por vezes enfrentei estradas típicas brasileiras e, por vezes banquei o ioiô para tentar fugir dos buracos conseqüentes política brasileira de conservação de estrada. Em todas ela foi ágil, em todas ela foi leve. Nenhum furo de pneu, nenhum problema com suas lindas rodas.

Passados os primeiros três mil quilômetros tinha chegado a hora de apertar minha amada. Seu teste final foi o aniversário dos SombreroS, uma visita a meus amigos de Sampa, uma oportunidade de testar, por fim, em todos os sentidos a Kamila em pouco menos de sete mil e quinhentos quilômetros. Às vezes reta, às vezes buraco, às vezes plano, às vezes íngreme, quando não quente, sempre fervendo. De tudo testei pilotagem, consumo, peso, beleza, barulho. Nem o escapamento ‘escapou’ de ser testado. Que o diga as cicatrizes dos primeiros quilômetros, que o diga as marcas de estrada remanescentes de suas viagens.
Em menos de um ano de vida a menina já andou mais de vinte e cinco mil quilômetros. Se ela gostou, claro. Vive me pedindo para repetir a dose. Não pode ver uma estrada que já se mostra faceira, com seu ronronar típico de uma aceleração constante. Pneus, apenas uma troca para o trazeiro. Surpreso, mas não incompreensivo, afinal não foram vinte mil quilômetros. Foram vinte mil quilômetros de estrada. E não é lá essas estradas São Paulinas com suas três ou quatro faixas, todas bem recapeadas. Foram, em sua maioria, estradas nordestinas de mão única, dividas por treminhões comedores de asfalto e construtores de buracos.
O que mudou em um ano? Uma bolha. Não por tanta carência, muito mais pelos insetos. Claro, o consumo melhora se você não tem seu peito servindo de muro para o vento. Consumo de uma moto de seu porte, nem mais nem menos. Para uma autonomia de pouco mais de duzentos e cinqüenta quilômetros, dependo de como você a acaricia, ela bebe entre quinze e vinte e cinco litros por quilômetros. Variável tanto quanto minhas necessidades de h2o ou h2alcool. Sabendo como acariciá-la melhor ela sabe responder no consumo. Sabendo como apertá-la melhor ela sabe como responder na velocidade, ou na retomada.
Uma moto incrível, mas vão dizer não é uma isso ou uma aquilo. E quem quer que ela seja. Ela é única. Alias, não é tão única porque suas irmãs, tanto brasileiras quanto estrangeiras lhe parecem gêmeas. Experimente viajar mil quilômetros e ter vontade de voltar na mesma hora que chegou? Use uma Boulevard M800 para isso. Você não precisa de outra moto. Aproveite e deixe esta marca em sua pele. Nada é mais para demonstrar seu amor
Pena que quem a revende não é merecedor de tantos elogios. Tive poucos problemas com sua montadora, fui feliz. Mesmo assim fatos me lembraram os pais onde vivo e as instituições com quem transaciono. Deixa prá lá, afinal nada me fará deixar de amar minha menina, linda negra, Kamila.
19/08/2009 at 12:26
[...] que não sente falta das rodovias do sudeste brasileiro, sua terra de emplacamento e de primeiros desafios. Claro também que somos cientes do desafio que seria transitar em tais condições. Claro que o [...]