Descobrindo os lençóis – Uma aventura às maravilhas tupiniquim
Há coisas que não se deve deixar de fazer nesta vida. Há lugares que não se pode deixar de conhecer. Neste primeiro mês do ano de 2010 me aventurei nos dois: fazer o que não se pode deixar de fazer e conhecer o que não se pode deixar de conhecer. Eu e mais quatro amigos numa aventura rumo às belezas de nossa terra. Descobrimos os lençóis, alvejados de brancura do Maranhão, descobrindo antes o açude Orós e depois o Delta do Parnaíba. Incrível, tanto a beleza destes lugares como o prazer de estar com estes caras por doze dias pilotando nossas motos. Aventura pura. Prazer imenso. Prazer intenso.
Já bastaria, para mim, pilotar a Kamila por tanto tempo. É meu remédio contra o estresse. Já me bastaria, também, passar tanto tempo ao lado de gente que compartilha de minhas paixões: moto e estrada. Já me bastaria o humor natural do Carline e a extemporaneidade do Carlos Maia. Havia, ainda, a seriedade do Lê e a ginga do Gênes. Tudo isso e, ainda, a visita ao amigo Jailton carregada de emoção, por nós e por quem já está há bastante tempo longe da família e da amada. O tambaqui na brasa, delicioso, e o banho de chuva revigorante, prévia de tudo o que veríamos formam paginas de um livro de aventuras que se complementa com a visita às belezas naturais que ainda residem em minhas lembranças. Amigos, motos, estradas, gente, açude, lençóis e o delta do Parnaíba, capítulos deste meu post; partes desta minha aventura; pura. Prazer imenso. Prazer intenso.
Capítulo I – Porque não ir.
Vou confessar, estava indeciso. Tinha alguns dias de férias para aproveitar e não queria ficar em casa, mas estava indeciso. Claro que conhecia os caras, mas nunca havia estado tanto tempo ao lado deles em tão diversificadas situações. Além do mais eram quatro ‘Vstrom’ e uma ‘Varadeiro’ e apenas a minha Kamila – uma ‘M800 Cruiser’. Também havia o fato de ser um estranho no ninho já que para os caras não seria a primeira vez em que estavam juntos. Para mim, com eles, era.
É complicado sair com caras que você, ainda, não conhece a personalidade, a forma de pilotar, de se divertir e tudo o mais. Não se sabe como será e o inicio pode até vir a ser o próprio fim. Não gosto de ‘podar’ ninguém, nem gosto que me podem. Numa aventuras dessas todos tem que ter o máximo de liberdade e de respeito, afinal de contas estamos de férias, estamos nos recuperando do estresse do ano todo, precisamos nos divertir, mas como se você não conhece os caras? Já andei com caras que não entendiam minha forma de ’extravasar’ e o que para mim seria normal para eles seria exagero. Seriam caras assim?
Do Carlos Maia eu já conhecia um pouco sua personalidade. Carinha como eu que gosta de uma biritinha e que tem uma capacidade de te conquistar como poucos com sua simpatia. Mas e os outros? Surpresa, claro. Primeiro porque assim como eu ninguém procurou ‘podar’ a ninguém e, graças a Deus nossos gostos se convergiram, seja na estrada, seja na hora do rango ou do petisco, seja nos passeios e nos happy hours. Assim, quando um estava a fim de tomar uma cervejinha, todos estavam ou, ao menos estavam presentes. Se um estava a fim de parar, todos paravam sem reclamar ou mal estar. Nos passeios estávamos juntos. À noite birita na praça das cidades com todos os presentes, ao menos a maior parte deles já que o cansaço pegava um ou outro, de vez em quando. Tinha que valer a pena com estes sujeitos, e valeu. Mas, quem são afinal estes sujeitos?
Capítulo II – os caras
Carlos Maia era quem eu mais tinha conhecimentos sobre a pessoa. É um cara super divertido e muito simpático e por quem tenho um grande respeito por ser um cara digamos assim, ‘diferente’. Lembra muito um velho irmão falecido. O mais ’liberto’ em todo o trajeto e o que mais tirou proveito de tudo.
Carlile, um empresário do ramo da cerâmica com um bigode que o caracteriza como um comediante daqueles nascidos no Ceará. Com certeza seria um bom humorista por suas tiradas, mas também um bom cantor haja vista a ‘canja’ que nos presenteou em Teresina com músicas do Gonzagão e até do Elvis. Imagine o sujeito, magro, alto, bigodudo, divertido e ainda cantor. Pena que resolveu levar o escritório junto em até pelo ao menos ¾ do percurso.
Lerário é um empresário do ramos dos motéis é um cara sério, observador e companheiro. Não é daqueles caras que se pode escrever muito, mas é um cara que você gosta de estar próximo. Transmite uma segurança para quem está ao seu lado que te deixa relaxado.
Genes é outro empresário. Este do ramo das pipocas. Simpatia apurada a um gingado bonito quando o assunto é um forró. Basta colocar a música e ele começa com o gingado. Como Carlile um cantor de banheiro de primeira afinal de contas todas as manhãs se podiam ouvir o cantarolar de músicas da Roberta Miranda e/ou do Bezerra da Silva. Super legal!? Ainda não consigo tirar da cabeça o ‘bicho feroz’ e ‘vá com deus’. Deu até vontade de re- escutar o vinil.
Outro que resolveu levar o escritório junto. Mais ameno que Carlile, mesmo assim ‘os negócios não podem deixar de ser feitos’. É a vida do empresário, enquanto se diverte se negocia.
Capítulo III – Motos e estradas
Não tente andar com um custom em meio a um monte de bigtrail. A pegada é outra, à vontade também. Claro, a Kamila é mais uma Cruiser. Tem pneus e uma boa tocada tanto para as retas quanto para as curvas, mas nunca será igual. Jamais iria descer serras como as que descemos pensando ser a Kamila uma bigtrail. Quando tentei, me dei mal e quase ‘sobro’ em duas curvas infernais. Nas retas era fácil seguir os caras, não somente porque o acordo foi o de segurar no máximo a 140, mas também porque quando este limite foi ultrapassado em 20 ou 30 a mais eu conseguia tirar forças de minha menina. Agora em curvas, repense. Baixar demais a moto de pouco vale, pode ate raspar a pedaleira. Tente ‘esterçar’ uma custom/cruiser em curvas de raio bastante fechado a 120 ou 130 km por hora. Batedeira de bolo dá melhores resultados e a confiabilidade dos freios traseiros limita a coragem. Mesmo assim, fui valente. Rodovias sem asfalto?! Não, nem vou descrever. Ainda mais a descida de uma serra em piçarro! Como já havia escrito em outro post ‘II circunviagem’ é uma cruiser que pensa ser trail. Incrível as respostas que esta minha moto me dá quando dela necessito. Mesmo assim ainda tenho a consciência de que ela é apenas uma cruzadora. É preciso ser consciente e pensar nos limites.
Capítulo IV – Gente
Impossível fazer uma viagem destas, de moto ou de carro, em que você para nos mais diversos pontos, sem deixar de conhecer gente, as mais curiosas possíveis. Não seria diferente nesta aventura. Assim não poderia deixar de descrever um pouco das figuras de Dona Lourdes, Marcelo, Vavá e o Mainha. Por ordem, então.
O Mainha, xará de Carlos Maia que também é chamado carinhosamente com a mesma alcunha foi nosso primeiro gondoleiro ou barqueiro como preferirem. Figura simpática que te oferece o passeio de barco pelo açude Orós, no Ceará. Bom papo, atencioso e prestativo te leva até a Dona Lourdes.
Dona Lourdes é a dona de uma pousada em uma das mais diversas ilhas que existem no açude Orós. Entre elas a do cantor Fagner que, por infelicidade, não nos deu o ar da graça. Mas havia Dona Lourdes. Simpática de sorriso farto e voz eloqüente esta figura é Tia do cantor. Em sua pousada há apenas um ritmo musical e uma só voz. Adivinhem! Prestativa no atendimento, dona de posses nos mais diversos ramos de atividade, mas humilde e convidativa em nos acompanhar num bate papo gosto sobre o Orós, Fagner, água e diversão. Interessante esta senhora, muito interessante.
Vavá e Marcelo entre outros dois que me falha a memória foram ou pilotos de barco ou pilotos de Toyota. No primeiro caso na travessia do rio preguiça e no segundo no rio Parnaíba. Sensacional, o passeio, a adrenalina nas manobras, as paradas nos igarapés ou nos bares e restaurantes que circundam estes rios. No segundo caso pelo passeio de Toyota até a chegada aos lençóis. Difícil dizer que o passeio tenha menos prazer que a caminhada sobre aqueles montes de areia fina e alvejante. Transitar sobre um piso de pura areia, de sulcos profundos e curvas a balancear o carro e coisa para quem sabe fazer. Melhor mesmo é curtir. Figuras que recomendo que conheçam. Tornará sua viagem mais divertida.
Capítulo V – Açudes, lençóis e delta
Difícil escolher algo mais bonito. Claro que o objetivo quando o trajeto foi traçado era o de conhecer todas estas maravilhas de uma só vez no menor espaço de tempo possível. Horrível, desta forma,, precisarei repetir tudo com mais calma, aproveitando melhor.
O açude Orós é uma das grandes obras de Juscelino que com sua visão de brasilidade e de empreendedorismo percebeu na grandiosidade do represamento do rio Jaguaribe uma fonte de riqueza e de fornecimento de água para o povo Cearense.
Açude enorme com capacidade de 2.100.000.000 m³, o que é água prá caramba, tem em seu leito várias ilhas nas quais se pode, até, criar gado. Foi o que fez Dona Lourdes que transportou estes animais para sua ilha onde está sua pousada.
O passeio e o mergulho em águas de correnteza leve, que podem te enganar são obrigatórios para quem visita este açude. Sem lembrar, é claro de contratar o Mainha e visitar dona Lourdes para um bom papo, uma cerva gelada e um ótimo peixe.
Os lençóis Maranhenses, de pura beleza é um Parque Nacional completamente, protegido, tomado por bancos de areias móveis de vegetação rasteira. Parece improvável vida naquele lugar, mas existe. Vilas se formaram em lugar cujo acesso somente se dá por animais ou a pé já que suas ruas são de pura areia; grandes sulcos de areia. A vegetação é toda rasteira em bancos de areia.
Estradas?! De areia. Transporte?! Somente Toyota com seus pneus largos e quase que completamente vazios. Um prazer único no balançar da suspensão rompendo os sulcos de areia até os bancos maiores. Chegou? Não. Ainda há trechos a percorrer a pé pois o carro não tem permissão do IBAMA para subir os morros maiores que dão acesso as belas piscinas naturais de águas límpidas e frias e extremamente convidativas. É preciso fazer o trecho andando até estas piscinas num sobe e desce contínuo.
Infra-estrutura!? Nenhuma. Tudo é proibido. Pode-se levar de tudo, desde que se tragam de volta, inclusive latas e papéis. A caminhada sobe e desce morro é cansativa, mas reconfortante.
O Delta do Parnaíba.
Falaram-me ‘se você conhecer o Delta, você não precisa conhecer os Lençóis’. Meia verdade. Claro que você precisa conhecer os Lençóis, mas depois disso preferiria o Delta, mesmo voltando um dia aos lençóis. Voltaria vários ao Delta.
Os lençóis são de uma beleza impar, mas a mim não deixou vontade de um retorno imediato. Não é daqueles filmes que se vê mais de uma vez. O Delta, ao contrário, é assim.
Formado por várias ilhas em seu leito, com caminhos que cruzam os igarapés somente possíveis se o passeio for via ‘voadoras’ e, mesmo assim, na baixa da maré e que nos leva até o berçário de várias espécies de caranguejo e outros crustáceos além de aves dos mais diversos tipos. Ainda desemboca no mar com uma beleza frontal impar.
Produtor de todo o caranguejo que chega ao Ceará, fonte de trabalho da população ribeirinha, também tem em seu leito ilhas com belos balneários ou restaurantes com um cardápio que de tão barato dá vontade de não parar de comer. Caranguejos? Tenha disposição e relaxe. Derivados? Repita o prato quantas vezes desejar, pois o preço é, realmente, convidativo.
Não faça o passeio coletivo em catamarãs super lotados. Prefira os de pequeno grupo ou contratados nas ‘voadoras’ disponíveis. Os catamarãs não chegam aos igarapés e tem limitações ao se aproximar do mar. As voadoras, além do mais podem carregar um pouco de ‘adrenalina’ se o piloto estiver disposto a algumas manobras.
Capítulo VI – Poetas
Por sorte minha o roteiro incluía a visita a dois grandes poetas populares. Gonzagão e Patativa. Quer dizer mais ou menos sorte. A cidade do Assaré não constava do roteiro, mas por obra da boa vontade de todos, me agraciaram com esta visita. Valeu.
Pra falar algo a respeito destes dois, um post é insuficiente. Em seus campos foram não apenas grandes poetas como figuras representativas de suas regiões. Cada um tem sua magnitude e expressão. Gonzagão fez o mundo conhecer o que é o baião e popularizou o tema o folclore e o forró. Seu museu guarda lembranças de um homem forte, brasileiro, regionalista e muito amado por todos de sua cidade natal – Exu.
Patativa, da cidade do Assaré, e por isso conhecido como Patativa do Assaré, foi poeta da cultura popular (voltada para o povo marginalizado e oprimido do sertão nordestino). Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como escritor, compositor, improvisador e poeta. Produziu também literatura de cordel, porém nunca se considerou um cordelista, apesar do acervo existente. Sabia tratar do cotidiano e da sofrida vida do homem nordestino com uma capacidade de expressão que seus versos, por si só, já nos conduz ao Pernambuco do sertão, de vida difícil, mas de extremo amor a terra.
O museu de Patativa é menor e mais simples que o do Gonzagão, mas é bem cuidado e conta com guias. Faltou isso ao de Gonzagão que parece estar mais exposto as intempéries e a falta de cuidados.
Poetas Pernambucanos
Poetas de cultura popular, poetas que cantam a vida, poetas que cantam o homem
Poetas da terra, poetas do chão, poetas da canção de forma simples de jeito fácil
Poetas do Brasil, do jeito brasileiro, da vida brasileira, do sertão brasileiro
Poetas que marcam minha vida, me encantam e inspiram, bastando relembrar
Poetas das formas simples, do jeito fácil no cantar e declamar
Guardo em minha alma o amor, a dor, a vida e a obra destes poetas da vida popular.
O retorno – capitulo final.
Depois de toda esta aventura, de ver tantas belezas fica a pergunta valeu à pena? Não, eu diria que não. Não vale se for para fazer da forma como fizemos. Para se ter uma idéia, em barreirinha, cidade que dá acesso aos lençóis já estávamos na estrada antes das quatro horas da tarde.
Um belo passeio, mas muito rápido por conta de um trajeto que precisávamos cumprir. Em Parnaíba não foi diferente. Acordava-se, corria-se aos passeios que fazíamos em menos horas até do que o contratado e no meio da tarde estávamos partindo.
Uma aventura como esta deve ser feita como se toma sopa. Pelas beiradas e como se faz sexo, sentindo prazer do inicio ao fim. Certo, certo, era preciso mesmo cumprir o trajeto e não perder a chance de tudo conhecer. Tem nada não, um dia volto. Volto com paciência, devagar, com mais tempo e disposição para curtir todas as belezas que me fizeram sentir o quanto é gostoso ser Brasileiro e dono de tantas belezas. Um dia volto e fico para escrever não apenas mais um post, mais um livro inteiro. Estas maravilhas fazem por merecer.
Formas e curvas – Parnaíba e Lençóis
Guia-me a tuas curvas de forma simples, deixa-me te descobrir.
Deixa- me sentir a fineza de teus grãos em curva móveis, guia-me até lá
Guia-me em teus segredos expostos a bela visão, deixa-me ir
Deixa-me invadir aos poucos tua beleza, me encantar
Na brancura de teus lençóis quero repousar, em tuas águas nadar
No calor do teu sol quero me bronzear
Do vigor de teus morros, no alto vibrar, não apenas gritar
Da lembrança de tuas águas, também quero sonhar.
Águas, ilhas, vida e prazer do saber viver, do amar
Igarapés, surpresas a cada olhar
Bicho gente como gente bicho, sempre haverá
Não apenas usam, mas insistem em querer te maltratar.
Sinto tua beleza sendo esmagada pela força do homem
Sinto tuas matas, almas que choram vendo a vida acabar
Sinto tuas águas tão cheias de riquezas, cansadas precisando descansar
Sinto tanta beleza podendo se acabar.
Ah, águas do Parnaíba guarda minhas recordações
Ah, grandes dunas brancas chama-me de volta
Ah, imagens do paraíso alimentado pelas águas de monções
Ah, sons, odores, belezas que me entorpecem, preciso retornar
Guia-me por tuas curvas, preciso a ti chegar
Deixa-me as lembranças dos afagos do vento e do pé no chão
Guia-me a teus tesouros, faz-me possuidor, preciso ficar
Deixa-me inebriado de tantas belezas, preciso de teu amor, de tua paixão.
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